Financiamento de Vorcaro para filme de Bolsonaro vira drama eleitoral para Flávio 
  • maio 15, 2026
  • Francisco Tavares
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O enredo cinematográfico envolve ainda a produção bancada pelo banqueiro sobre Michel Temer e o documentário de Oliver Stone em homenagem a Lula 

O caso Master virou material radioativo na política e, dada a extensa lista de personagens à esquerda e à direita enredados na teia de conexões de Daniel Vorcaro, está em curso uma disputa para tentar empurrar para o adversário o maior nível de proximidade, intimidade e envolvimento com o escândalo. O presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, se transformou no principal alvo dos últimos dias por causa de um enredo literalmente cinematográfico. A história foi revelada por diálogos publicados pelo Intercept entre o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-­banqueiro. Mostrando intimidade com o interlocutor, o senador cobra dele parcelas atrasadas de um contrato de financiamento para um filme em homenagem ao pai. Desde novembro do ano passado, quando Vorcaro foi preso pela primeira vez, Brasília é cenário real de um thriller de suspense. Até onde se sabe, não há prova de qualquer ilegalidade no negócio, mas o simples envolvimento de um candidato ao Palácio do Planalto com o ex-banqueiro preso por protagonizar uma das maiores fraudes de instituições financeiras na história do país foi suficiente para provocar um terremoto. 

PATROCÍNIO - Vorcaro e Flávio: 61 milhões de reais e tempestade política (Ana Paula Paiva/Valor/Agência O Globo/.) 

As investigações apontaram que o banco lançou mão de expedientes fraudulentos que deixaram um rombo no mercado superior a 50 bilhões de reais. Mais que isso: não há dúvida de que um golpe dessa magnitude só poderia ser concretizado com o apoio, a participação e a cobertura de gente influente, bem posicionada em órgãos e gabinetes ligados aos Três Poderes. Ao longo dos meses, nomes importantes da República foram conectados a histórias estranhas e nada edificantes junto ao banqueiro. Acuado, Vorcaro, que está preso desde março, negocia uma delação, na qual propõe revelar segredos em troca de benefícios. Até agora, no entanto, não vem conseguindo emplacar o acordo. 

 

ENREDO - O filme: o herói vítima do establishment corrupto (./Reprodução) 

A história de cinema envolvendo Vorcaro e Flávio Bolsonaro veio à tona na tarde da quarta-feira 13, um dia que começou tranquilo. Logo cedo, a Genial/Quaest divulgou nova pesquisa de intenção de votos na qual Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) aparecem de novo empatados nas simulações de segundo turno, mas desta vez com o petista numericamente à frente do rival. Como parte de seu esforço para construir um figurino de moderado, o senador visitou no início da tarde o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, para estender a mão ao diálogo e prometer que não apostará em atritos institucionais, como fez seu pai em 2022. Já Lula, empenhado em melhorar o humor da população com o custo de vida, assinou uma medida provisória destinada a atenuar o impacto do aguardado reajuste dos combustíveis no bolso do eleitorado. Cada candidato jogava com as armas que tinha, e a disputa transcorria dentro do esperado. Foi assim até a reportagem do Intercept tornar secundários todos os movimentos políticos realizados ao longo do dia. 

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De acordo com a publicação, Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Daniel Vorcaro para pagar as contas de um filme sobre Jair Bolsonaro, previsto para estrear antes da eleição e idealizado para impulsionar o postulante da família ao Palácio do Planalto. Houve cobrança de recursos, por exemplo, em setembro de 2025. “Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar cobrando, tá? Mas, enfim, é porque tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso, e eu fico preocupado com o efeito contrário ao que a gente sonhou pro filme”, diz o senador, fazendo as vezes de produtor cinematográfico, em áudio enviado ao ex-banqueiro. Em novembro, na véspera de Vorcaro ser preso, Flávio reforçou a ofensiva: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”. As mensagens foram encontradas no celular do ex-banqueiro. 

“Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa.” – Romeu Zema, pré-candidato do Novo () 

Flávio Bolsonaro teria negociado com Vorcaro o repasse de 134 milhões de reais para bancar o filme sobre o pai, mas apenas pouco mais de 61 milhões de reais acabaram sendo desembolsados, porque o fluxo foi interrompido em razão das dificuldades já enfrentadas pela instituição financeira. As cifras importam, mas não contam tudo. Com carreira meteórica no sistema financeiro e na corte brasiliense, Vorcaro investiu pesado para criar uma rede de contatos com poderosos capaz de facilitar suas falcatruas bilionárias e blindá-lo de eventuais investigações. Como parte dessa estratégia, ele bancou festas, viagens e despesas de autoridades e contratou consultorias milionárias de políticos e apaniguados. Tocada pela Polícia Federal (PF) sob supervisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, a Operação Compliance Zero tem o objetivo de mostrar quais dessas iniciativas foram legais e quais acobertaram crimes como corrupção, tráfico de influência e lavagem de dinheiro. A ajuda financeira ao filme de Jair Bolsonaro passará pelo mesmo escrutínio.   

INVESTIGAÇÃO - Mendonça: caso passará pelo escrutínio do ministro (Gustavo Moreno/STF) 

Depois da revelação, Flávio se reuniu às pressas com seu núcleo de campanha e divulgou uma nota para tentar explicar os termos de sua relação com o ex-banqueiro. No texto, apresentou-se como um filho dileto que pediu patrocínio privado para um filme privado sobre o próprio pai. “Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet”, ressaltou. “Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem. Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro”, acrescentou. A gestão petista rebateu dizendo que, no atual governo Lula, o Master foi liquidado pelo Banco Central e está sendo esquadrinhado pela PF. No mesmo dia em que o Zero Um confessava o patrocínio de Vorcaro para bancar o filme do pai, no entanto, um importante aliado bolsonarista contou uma história diferente. Mario Frias, deputado federal do PL-SP e produtor do longa, divulgou nota dizendo que a produção não tinha recebido nenhum dinheiro do ex-banqueiro. Depois, diante da confusão, retificou a informação, explicando que o repasse foi feito através de uma empresa, e não diretamente pelo dono do Master. A história chamou a atenção da PF, que vai apurar o caminho do dinheiro. O investimento de Vorcaro teria sido transferido para um fundo no Texas, nos EUA, pela Entre Investimentos e Participações, sediada no mesmo estado onde vive hoje Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio. Numa tentativa de sair da defensiva, o senador também defendeu a instalação imediata da CPI do Master, “como forma de separar os inocentes dos bandidos”. 

Apesar da tentativa de sair das cordas, é visível o constrangimento dele com relação ao caso. Na quarta, na saída do encontro com o ministro Edson Fachin, o senador foi perguntado sobre seu pedido de ajuda financeira a Vorcaro. Como o áudio ainda não tinha sido divulgado, disse que era mentira. Está claro que ele tentou esconder o quanto pode a transação entre as partes. “Conheci Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia acabado e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro. O contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias ao filme”, declarou o senador na nota. 

“Tudo que envolve Master e cifras milionárias precisa ser tratado com total transparência com a população.” – Ronaldo Caiado, pré-candidato do PSD (Eduardo Knapp/Folhapress/.) 

As mensagens com pedido de apoio financeiro foram enviadas quando Daniel Vorcaro tentava salvar o Master com a ajuda de políticos, muitos deles ligados à família Bolsonaro. Com o aval do então governador Ibaneis Rocha (MDB), aliado do capitão, o banco estatal de Brasília, BRB, fez uma proposta de compra da encrencada instituição financeira, em operação que acabou vetada pelo Banco Central. No Congresso, o senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas, apresentou uma emenda para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Se tivesse sido aprovada, essa regra daria fôlego aos negócios e trapaças do Master. A PF afirma que o texto da emenda foi redigido pela equipe do ex-banqueiro e reproduzido de forma integral pelo parlamentar, que usufruía de um apartamento de luxo de propriedade de Vorcaro, que também lhe pagava mesada, além de despesas pessoais, como viagens, contas de restaurante e voos em jatinhos. 

SUSPEITA - Eduardo: PF quer saber se o dinheiro foi parar na conta dele (Lev Radin/ZUMA Press/Alamy/Fotoarena/.) 

O escândalo do Master é suprapartidário e envolve autoridades dos Três Poderes. Há suspeitas sobre ministros do STF, petistas estrelados e parlamentares da direita. Flávio Bolsonaro agora foi tragado para o centro do furacão. “O PT tenta mais uma vez aplicar sua velha estratégia política: jogar todos no mesmo ambiente de suspeita e corrupção. Basta um filho do ex-presidente buscar patrocínio privado para um filme privado para imediatamente iniciarem uma operação política de criminalização”, rebateu o líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto (PL-PB). A novidade é que o cerco não se restringiu aos petistas. Outros presidenciáveis da direita fizeram cobranças, o que provocou o início de um racha entre os candidatos do campo da direita. 

Ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) considerou “imperdoável” o pedido feito pelo senador a Vorcaro. “É um tapa na cara dos brasileiros”, criticou. Já Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, soltou nota em tom um pouco mais brando: “O Brasil vive um momento em que a sociedade exige clareza nas relações entre agentes públicos, empresas e interesses privados”. Dos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro contra-atacou Zema, lembrado que o Master havia doado 1 milhão de reais para a campanha do ex-governador. “Isso aqui seria, nas suas palavras, ‘fazer a mesma coisa que o PT’, Zema?”, escreveu o ex-deputado. Segundo especialistas, Lula já tem vaga garantida no segundo turno da próxima eleição. Caiado e Zema tentarão chegar lá tomando o lugar de Flávio Bolsonaro. 

DELAÇÃO - Lula: documentário de 2024 também teria recebido ajuda financeira do dono do Master (Mateus Bonomi/AGIF/AFP) 

Por mais estranho que seja um político trabalhando informalmente de produtor cinematográfico, não é crime pedir ajuda financeira privada para a realização de um filme. Certas sombras e indícios de ilegalidades aparecem quando interesses privados se entrelaçam demais com interesses públicos. Lançado em 2010, o filme Lula, o Filho do Brasil foi patrocinado e apoiado por um grupo de dezoito empresas. Entre elas, estavam três empreiteiras envolvidas no escândalo da Lava-Jato, em 2014: Camargo Corrêa, OAS e Odebrecht. O empreiteiro Marcelo Odebrecht entregou à Justiça uma nota fiscal de 250 000 reais e um comprovante de pagamento à produção. Em e-mails capturados pela PF, executivos falavam de uma demanda de 1 milhão de reais para “apoiar o filme de interesse do nosso cliente”, que, segundo os investigadores, era o presidente. 

NA SURDINA - Odebrecht: empreiteiro confirmou pedidos e repasses de dinheiro para Lula, o Filho do Brasil em 2010 (Paulo Lisboa/Folhapress/.) 

No rastro da turbulência da última quarta-feira, surgiram notícias de que Vorcaro financiou o documentário Lula, de Oliver Stone, e 963 Dias — A História de um Presidente que Recolocou o Brasil nos Trilhos, do cineasta Bruno Barreto, sobre a passagem de Michel Temer pela Presidência. O caso do patrocínio ao filme de Oliver Stone foi confirmado por uma pessoa próxima ao ex-banqueiro. Produtor executivo de 963 Dias, o publicitário Elsinho Mouco, depois de negar, confirmou a VEJA que Vorcaro doou 1 milhão de reais à produção. O dinheiro, segundo ele, foi repassado em 2023 em uma negociação direta com o próprio dono do Master. O filme, que será lançado no segundo semestre, custou 12 milhões de reais e havia cláusula de confidencialidade entre as partes. Por razões hoje compreensíveis, Vorcaro não apareceria formalmente entre os patrocinadores. Uma fonte ligada ao ex-banqueiro informou que Vorcaro era permeável a esse tipo de contribuição. Doou para Temer e também contribuiu com o documentário de Lula. Procurada por VEJA, a assessoria da Presidência da República deu a seguinte resposta: “Não houve qualquer pedido, nem do presidente e nem do governo, para o financiamento do documentário Lula, de Oliver Stone”. Dentro da mesma política de fazer amigos e ter influência, Vorcaro também injetou dinheiro em vários sites jornalísticos, patrocinou eventos e bancou o Will Bank no programa global de Luciano Huck, uma espécie de gincana televisiva que oferecia prêmios semanais de 1 milhão de reais. 

Em mais um capítulo da trama do escândalo do Master, na quinta-feira 14, em nova fase da Operação Compliance Zero, a Polícia Federal prendeu Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, apontado como beneficiário do esquema de fraudes do filho. Além dele, foi capturado um grupo que seria encarregado pelo Master de ações de espionagem, de invadir sistemas de computador e de perseguir e ameaçar adversários do banqueiro. 

CONFIDENCIAL - Temer: filme do ex-presidente recebeu 1 milhão de reais em forma de patrocínio (Charles A. Sholl/Brazil Photo Press/Folhapress/.) 

O longa-metragem biográfico sobre Jair Bolsonaro que agora está no centro de embate eleitoral, intitulado Dark Horse (expressão em inglês equivalente a “azarão”), tem como protagonista o ator americano Jim Caviezel. A sinopse fala de “um outsider controverso que ascende de um obscuro capitão do Exército a líder da corrida presidencial em um Brasil profundamente polarizado, só para enfrentar um mortal plano de assassinato que transforma sua luta contra um establishment corrupto em uma luta por sobrevivência”. Antes mesmo de chegar às telas, esse enredo edificante corre o risco de ser maculado — não por detratores, mas pela aproximação do primogênito do herói incensado com o establishment corrupto que o filme pretende denunciar. Coisa de cinema. 

Fonte: Matéria reproduzida integralmente da Veja

 

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